As maiores emoções da minha vida – 2ª parte

Em 1982, tive alguns sonhos indígenas, que foi como premonição do que estava para acontecer. Em 1984, um convite de Washington Novaes para gravar uma série no Xingu, indicação do meu querido amigo Guerrinha. Não fosse a coincidência dos sonhos com o fato, esta foi a melhor emoção da minha vida! Uma equipe de quatro profissionais: Washington- diretor, Antonio Gomes- som e vt, José Carmo- produção e eu na câmera, da era u-matic.

xingu_84_equipe

A VIAGEM
A produção realizada para 60 dias, com quase duas toneladas de equipamentos e mantimentos, foi organizada nos mínimos detalhes.
Uma ida a FUNAI em Brasília, para acertar detalhes, com muitas recomendações, pois iríamos visitar 6 aldeias.

No Posto Leonardo, organizamos e separamos os materiais para a primeira incursão, a aldeia dos Waurás. O posto se localiza praticamente no alto Xingu, a 6 horas dos Waurás. As voadeiras (barcos de alumínio) com motor de popa de 40hp, nos transportava para as aldeias.

Depois de 4 dias no Leonardo esperando o start da nossa aventura, embarcamos cedinho para o encontro com os Waurás. Serpenteando as águas cristalinas do Tuatuari e depois o rio Culuene, guiados pelo Coronel (jovem índio do posto), fui gravando tudo que via, deslumbrado com a beleza desta natureza intocável!

Na chegada do porto, veio a mais bela visão que um Caraíba pode ter! Um índio Waurá, em pé, todo pintado e paramentado, nú, com uma lança em cima da pedra, e um turbilhão de borboletas amarelas girando a sua volta, realmente espetacular! Ali, iniciava para nós, a passagem no “túnel do tempo”. O índio nos levou para conversar com o chefe Malakuiawa, que nos esperava na aldeia, a dois km do porto. Levamos nossos pertences, deixando no barco todas bagagens e equipamentos.

lula e toninho no xingu

Várias crianças nos acompanharam no trajeto, tornando a caminhada muito prazerosa. Alguns falavam português, facilitando o contato. Já escurecia quando chegamos na casa dos homens, no centro da aldeia.

Malakuiawa nos esperava para conversar. Seu filho Atamai era o interlocutor e, perguntou se trouxemos o trator. Washington ficou surpreso mas explicou que tinha feito um contrato com a Funai de pagar um cachê igual para as aldeias e que não daria para comprar um trator. Feita a tradução para o chefe, ele começou a chorar. Ficamos atônitos com a situação, o choro levou uns 15 minutos, mas depois, se levantou e falou, que iria nos ajudar a realizar as filmagens, com festas e danças, enfim mostrar sua cultura, o dia a dia da comunidade. Washington prometeu falar com nossos produtores sobre o trator, e acabou que a Ford fez a doação.

Os deslocamentos para gravar, eram feitos a pé ou de barco, mas sempre tínhamos que andar muito. Nos 60 dias, uns 250 km!
A floresta tem tudo: O buriti é de mil utilidades, as ervas medicinais, o sal extraído do aguapé, as canoas feitas de tronco, as flechas, o urucum, o pequi e todos os frutos.

São festeiros, cantam, dançam, pintam (e bordam), pescam, caçam, constroem abrigos, fazem suas ferramentas e são ótimos artesãos. Os Waurás fazem panelas de barro(cerâmica), extraído no fundo do rio.

Foi como uma lavagem cerebral, os aprendizados diários que víamos, desde o respeito e atenção aos idosos, até a liberdade incondicional das crianças. Uma sociedade feliz, democrática, respeitosa de suas crenças.

Vivendo e aprendendo, a oportunidade de conviver com os seres especiais, como nossos ancestrais, beber da sua sabedoria, é realmente um privilégio!
Washington nos levou a desfrutar mais cinco nações indígenas, que nos fez crescer com essa energia ancestral

Kuikuro   Yawalapiti    Kalapalo    Metuktire   Panará

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Uma resposta para As maiores emoções da minha vida – 2ª parte

  1. Luiz Carlos disse:

    Tudo bem Lula eu sou um maquinista que fez uns trabalhos com voce na Tec Cine ainda com o JB e na abertura da mnovela da Manchete Ana Raio e Ze Trorovão
    Junto com o Guerrinha um grande abraço

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