Posso dizer que sou um cara de sorte!

Toda minha vida foi cercada de incidentes, que me levaram a ser hoje, um amante da vida. Em situação de perigo, de risco de vida, costuma passar um filme na cabeça da gente, como um clipe da sua vida. E cada vez você renasce, agradece a Deus por ter sobrevivido, e tenta melhorar de atitude, pois você tem mais uma chance. Vou relatar aqui algumas experiências que passei nesta vida.

No ano de 1974, levando uns móveis pra Maricá, de Kombi, depois de descarregar a mudança, resolvemos dar um mergulho no mar. Eu, Netto e Sérgio, ficamos impressionados com a calmaria do mar, parecia um lago, e começaram a me sacanear com meu novo par de pés de pato. Resolvi então dar uma nadada, para experimentar a novidade, e fui pra fora (alto mar), em velocidade… Escutei um assobio da praia, eram os meninos apontando para o horizonte, era uma Waymea, a onda gigante, que vinha lá longe em direção à praia. Um segundo para tomar a decisão. Fugir ou partir pra cima? Estava eqüidistante… Parti pra cima dela, a todo vapor! Confiando em meus pés, alcancei velocidade de desenho animado, quase fora d’ água, quando percebi que ainda estava longe dela, que, a cada instante, aumentava de tamanho. Segui a batalha de me superar, para enfrentar aquele gigante, que, parecia um paredão de mar, e o vento fazia chover, no alto da sua crista em cima de mim. Agora bem próximo, no risco máximo, passou o filme da minha vida, na minha cabeça. Parece edição de décimos de segundos, imagens de momentos da minha existência, nesse curto espaço de tempo, até conseguir vazá-la na curva do seu dorso, saltando no ar do outro lado e cair no seu chupão, depois do estrondo abafado de milhões de litros de água em queda. Exausto e assustado, ainda tive que nadar para outra menor, que vinha logo em seguida, e acenar para o pessoal da praia aliviando a tensão. Fiquei algum tempo boiando, pra voltar a respiração ao normal. Este filme eu vi diversas vezes, nos outros acidentes que tive no decorrer da vida.

Em 1981, na volta de Londres, onde gravamos a novela Brilhante, sob a direção de Daniel Filho, tivemos uma cena de efeito especial. No campo de Gericinó, em Campo Grande, a queda de um avião bi-motor, que batia numa árvore e explodia. Tudo programado para a cena, envolvendo caminhões, cabos, roldanas, trilhos e muita gente. Daniel junto com o Farjala (efeitos especiais), estudando os melhores ângulos para as câmeras. A carcaça da aeronave, estava sobre um trilho camuflado com folhas num declive do terreno, de forma que o aparelho descia até bater na árvore, para depois explodir. A única câmera frontal era a minha, em cima de um andaime de três metros de altura.

Dado o “ação”, todos gravando, o avião vem vindo em direção a árvore e de repente sai do trilho, desviando do obstáculo e seguindo em minha direção. No ocular da câmera senti que vinha muito rápido, escapando da árvore e se aproximando, quando fui olhar fora da câmera, já estava embaixo. Segurei com força a câmera achando que só iria balançar, quando veio o impacto, fechando o quadrado do andaime (jaú), me lançando com a câmera para o alto, como numa catapulta.

Neste momento, fechei os olhos e agradeci a Deus por tudo, pela proteção, e caí no meio das ferragens em pé (parecia um paliteiro), com pequenas escoriações. Quando toquei o chão, a asa do avião ainda me empurrava pelo pescoço até parar. Era o fim do cabo de aço, que segurava o aparelho pela cauda. Tenho foto da queda, feita pela reportagem do globo. Neste momento, também passou o filme da vida, só que de outra forma. De olhos fechados, confiante na proteção divina, pois estava mais entregue nas mãos de Deus, diferente do pavor que senti da onda gigante.

Outro acidente com avião, aconteceu em 1991, no auge do sucesso da novela Pantanal, direção de Jaime Monjardim. Fiquei 8 meses no pantanal, gravando stock shot (fauna, flora, etc.). Depois da primeira fase da novela, a nossa equipe reduzida, visitava as fazendas, gravando material para abastecer os capítulos de visuais da natureza. Tínhamos um mono-motor, que nos levava nestas incursões e, sobrevoando uma fazenda, vimos o avião que fazia o mesmo trabalho com a equipe da revista Manchete. Sugeri descermos para trocar informações, pois eles sempre tinham boas dicas de lugares, ninhais e eram pessoas legais. Nosso grupo era de quatro pessoas e acabávamos de chegar de Bonito, onde gravamos uma gruta fantástica. Usei o recurso de espelhos, para iluminar a boca da gruta. Na aeronave não havia espaço para os espelhos, somente dentro da cabine, lá atrás, deitados sobre o equipamento. O piloto ficou relutante em descer na fazenda. A pista era curta, mas tinha um bimotor no solo.

Procedimento de descida, já com as rodinhas no chão, o piloto não conseguiu reduzir a velocidade, o fim da pista, com o bimotor de frente e por pouco não batemos, desviando com a asa direita levantada, ufa!!! Passamos o avião, em seguida a cerca de arame que rompemos, para cair num alagado que estava em desnível à nossa frente. Um tronco de babaçu, bem grosso, a poucos metros nos esperava para explodir, mas as águas nos frearam brutalmente.

O estrondo que ouvimos dentro da cabine, eram os espelhos que estavam a altura de nossos pescoços, e na freada brusca, quando estávamos curvados para frente, eles passaram e explodiram no pára-brisa da aeronave. Não nos machucamos, graças a Deus, mas os espelhos nos deram um grande susto.

O dono da fazenda disse ter visto uma grande onda, tipo aquela, no mar do pantanal. Gravei depois, uma junta de oito bois, retirando o nosso avião do alagado. O Jaime usou estas imagens, para a notícia do desaparecimento de um personagem da novela.

Um outro episódio aéreo foi em 1999, no Rio Grande do Sul, já concluindo nossa missão de viajar o Brasil captando material para o filme, “Brasil, Feel the passion”, dirigido por Sérgio Bernardes. Viajamos por todo o país, documentando as belezas da nossa pátria. Muitas horas de vôo de helicópteros nos colocaram várias vezes em situações de risco de vida.

A mais grave foi nos Aparados da Serra, onde tomamos um susto ao chegarmos. A equipe do Ibama nos recebeu com armas em punho, pois é proibido o sobrevôo nesta área. Sérgio tentou contatar com a produção, sem sucesso. Não tínhamos em mãos nenhum documento oficial, mas depois conseguimos a liberação para irmos embora. O Itaimbezinho é um espetáculo para os olhos de qualquer ser humano! Imagine uma rachadura gigantesca de mais de 10 km, com 100 metros de profundidade, com os paredões encachoeirados, é lindo! Com a câmera instalada no nariz do helicóptero, e comandada através de um joystick, captávamos um material espetacular, quando de surpresa deparamos com um cabo aéreo, quase invisível, que parou bruscamente o aparelho, deixando-nos mais uma vez entregue nas mãos de Deus.

A frenagem foi brusca e a aeronave declinou para trás, parecendo que ia cair. Nossa sorte é que, abaixo da hélice, existe um corta-cabo, espécie de lâmina apropriada para este tipo de emergência e, no final da resistência do cabo, e da habilidade do nosso piloto, conseguimos romper a barreira. O estrondo que causou, com a quebra da peça de corte, caindo dentro da nave e ferindo as costas do piloto, em segundos estávamos em pânico, para em seguida, habilidosamente, nosso comandante retomar o controle, e pousar num terreno para avaliação dos danos.

Encontramos outro cabo aéreo quando sobrevoamos um rio em Roraima. Era um vôo rasante, sobre o leito de um rio serpenteado e, de repente, avistamos uma balsa e paramos no ar para observar, tomamos o maior susto, pois estávamos a um metro de um cabo aéreo! Márcio Muller, nosso piloto, mostrou sua destreza ali, naquele momento. Foi um susto e tanto, mas graças a Deus, escapamos.

O MONTE RORAIMA

Com o Sérgio Bernardes, visitamos o Monte Roraima, o ponto mais setentrional do nosso país. É um paredão de 3.000 metros de altitude, difícil acesso e de uma beleza rara, que poucos tiveram a oportunidade de conhecer. Estivemos lá, meses depois de um acidente com equipe do globo ecologia, que por excesso de peso caíram, num acidente de repercussão nacional. Neste evento, perdemos um colega, técnico de som chamado Cuca, que conheci na TVE. Ficamos sabendo dos detalhes do resgate, por intermédio do nosso comandante Márcio Muller, responsável pela operação de resgate, que também teve participação das forças armadas.
O monte Roraima é, geograficamente, como a torre do jogo de xadrez, o centro é rebaixado, ficando um paredão em volta.

Quero abrir um parágrafo especial para meu assistente de câmera, Eduardo de Andréa, que nessa expedição ajudou muito para resolvermos as questões operacionais da viagem. Eu e Kito, (apelido do Eduardo) tivemos treinamento para abastecer a aeronave durante nossa estada na Amazônia, pois não havia espaço para a tripulação do helicóptero. Aprendemos a abastecer, aterrissar em terreno acidentado e preparar a aeronave para os pernoites (estacionar). A cada troca de rolo, Kito descia da nave, sem pousar e comandava o piloto para uma melhor posição. Limpava o filtro da lente e carregava o novo chassi, já dentro da aeronave. Esta operação parece simples, mas na hora é o maior estresse. De temperamento calmo, Kito resolvia todas as questões com serenidade. Isso ajudou muito.

Com toda precaução, fizemos o translado em duas viagens. Existe um “esperar” em solo, a abertura das nuvens para termos acesso ao monte. E rapidamente decolamos para a primeira leva que já estava pronta. Eu Kito e nosso piloto, levantamos para a primeira viagem.
Assistimos o Luiz Saldanha, nosso produtor, jogando nossa barraca no chão, triste por não ter chegado a tempo de embarcar na aeronave. A subida é incrível, para atingir os três mil metros o helicóptero tem que subir num movimento espiral. Vendo aquele gigantesco paredão, que não acaba nunca na nossa frente, fizemos o agradecimento a Deus, pela oportunidade de estar ali e, aterramos com tranqüilidade no topo do monte.

Depois de descarregar o material, ficamos como crianças, naquele paraíso lunar, correndo de um lado para o outro, felizes, tirando fotos e brincando. De repente vem uma nuvem negra, em nossa direção e nos faz, aceleradamente juntar todo nosso material em baixo de um guarda-sol, que prendemos no tripé do steadicam, que já estava montado. A grande nuvem tomou conta do espaço, com visibilidade de 50 cm.

Começou a chover forte, e nós juntos com toda tralha amontoada, debaixo daquela mini proteção, com um volume grande de água, em corredeiras pelos nossos pés. Passou a chuva e checamos o que molhou, separando algumas coisas e olhando o cenário que mudou totalmente. Agora tinha uma névoa, que cobria tudo, mas descortinava, aos poucos, pedaços dos paredões de pedra, que formam desenhos de bichos, cabeças de índios e outras coisas indefinidas.
Escureceu muito rápido e começamos a ficar preocupados, porque só tínhamos trazido mantimentos e algumas roupas. As barracas viriam na segunda viagem, portanto, com o cair da noite, estávamos sem abrigo. Vibramos com o som do helicóptero, com farol aceso, tentando nos localizar. Daí pra frente foi um corre-corre, pois o local do acampamento ficava a uns 500 metros, em terreno muito acidentado e lavado pelas sucessivas chuvas.

Porthos, o nosso guia, chegou à frente das pedras gigantes e nos orientou para montar as barracas. Nosso piloto acabava de aterrissar numa manobra espetacular, quando abrimos a porta da aeronave, um cheiro de querosene muito forte, tomava conta da cabine, deixando o comandante ligeiramente tonto.

A bomba de combustível, havia derramado e causado este transtorno. Graças a Deus, ficamos todos bem, aquecidos e abrigados. À noite, a chuva trouxe o cansaço e o sono, por causa da altitude, o rarefeito nos deixa tonto nas primeiras horas e, resolvemos que seria melhor dormir cedo para ganhar o amanhecer.

Eu estava encharcado da chuva, e como criança, adorando estar descalço, fazendo o fio terra com o Monte Roraima. Todos se recolheram, fui trocar de roupa na barraca que divido com o Sérgio, e com a minha Meg-light de 5 pilhas, procurava na mochila algo próprio para chuva e pousei a lanterna no chão. De repente a luz apagou.

Achei estranho, a mega era zero km. No escuro abri e tirei as pilhas, troquei de posição, nada. Um ruído fora da barraca me chamou atenção, era uma respiração ofegante, bem do lado da entrada da barraca. Era o barulho da chuva no tecido, o ronco do Sérgio e a respiração ofegante, que aumentava a cada instante. O medo tomou conta, tinha certeza que todos já estavam dormindo somente Porthos esquentava uma água pra fazer o macarrão, portanto o que estava acontecendo? Comecei a rezar o Pai nosso…

E a respiração começou a diminuir de intensidade, até que parou de vez. Agradeci a Deus, e na hora não percebi, o sinal que estava recebendo. Foi um momento especial para mim, hoje penso que pode ter sido, um contato espiritual com meu colega Cuca. Na hora da oração, pensei na proteção, para depois dedicar aos espíritos necessitados, como sempre faço orar pelos nossos ancestrais, orientação do mestre Taniguchi.

Aproveito para reverenciar, aquele que há mais de 30 anos tem sido o fio condutor da minha vida, a filosofia otimista que adotei e que tem me ajudado significativamente. Os preceitos diários do mestre Masaharu Taniguchi ( Seicho-no-iê), é uma folhinha que viramos a cada dia, e tem sempre uma ótima frase para iniciar a nossa jornada, dando um gás ao espírito e auto-estima.

Bem, continuando, depois da chuva, saí da barraca e fui ao encontro de Porthos que já estava na reta final da sopa tão desejada e cheirosa, naquela noite de 6 graus. Certifiquei-me que não havia passado na minha barraca e, logo todos começaram a chegar pelo cheiro, como desenho animado.

Agora sem chuva, saboreamos a delícia quentinha que nos salvava naquela friagem. Sérgio pediu para arranjarmos gravetos para uma pequena fogueira. Parecia piada, depois daquela chuva encontrarmos algo seco. Venceu o espírito indígena e fomos atrás dos gravetos. Todos tinham as big lanternas, com seus fachos potentes e, surpreso fiquei quando encontro bem próximo do acampamento, um monte de gravetos, secos e arrumados como uma mini fogueira.
Chamei na hora uma testemunha para que não tivesse dúvida e levamos, assim como estava para cima do fogareiro, queimando aquelas raízes misturadas, exalando um perfume dos deuses, um aroma especial combinando com o brinde do presente que nos fizeram os índios Macuxi, o Caxirí (bebida feita da mandioca), de cor lilás a 6 graus, uma delícia!

Esta noite ainda fomos cobertos por uma espessa camada de nuvem branca que refletiam as luzes de nossas lanternas, em movimentos circulares parecendo ”contatos imediatos”. A alegria era tanta que parecíamos adolescentes, brincando com lanternas e gritando como índios. O Monte Roraima, representa para os Yanomamis, o tronco da árvore gigante da vida, habitat de Macunaíma, um lugar mágico!

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