“Eu Receberia as Piores Notícias dos seus lindos Lábios”

“Não só a realidade social explosiva como também a luz e as cores da Amazônia entram em cheio no filme, através da fotografia de Lula Araújo – um grande conhecedor da região, engajado em diversos projetos para a TV de Washington Novaes (como “Xingu – A Terra Ameaçada”) e também fotógrafo do belo “Tamboro”, de Sérgio Bernardes, ainda inédito no circuito comercial, e que foi o motivo de sua aproximação com os diretores.”
Folha de São Paulo

Stills: Carol Da Riva

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As maiores emoções da minha vida – 2ª parte

Em 1982, tive alguns sonhos indígenas, que foi como premonição do que estava para acontecer. Em 1984, um convite de Washington Novaes para gravar uma série no Xingu, indicação do meu querido amigo Guerrinha. Não fosse a coincidência dos sonhos com o fato, esta foi a melhor emoção da minha vida! Uma equipe de quatro profissionais: Washington- diretor, Antonio Gomes- som e vt, José Carmo- produção e eu na câmera, da era u-matic.

xingu_84_equipe

A VIAGEM
A produção realizada para 60 dias, com quase duas toneladas de equipamentos e mantimentos, foi organizada nos mínimos detalhes.
Uma ida a FUNAI em Brasília, para acertar detalhes, com muitas recomendações, pois iríamos visitar 6 aldeias.

No Posto Leonardo, organizamos e separamos os materiais para a primeira incursão, a aldeia dos Waurás. O posto se localiza praticamente no alto Xingu, a 6 horas dos Waurás. As voadeiras (barcos de alumínio) com motor de popa de 40hp, nos transportava para as aldeias.

Depois de 4 dias no Leonardo esperando o start da nossa aventura, embarcamos cedinho para o encontro com os Waurás. Serpenteando as águas cristalinas do Tuatuari e depois o rio Culuene, guiados pelo Coronel (jovem índio do posto), fui gravando tudo que via, deslumbrado com a beleza desta natureza intocável!

Na chegada do porto, veio a mais bela visão que um Caraíba pode ter! Um índio Waurá, em pé, todo pintado e paramentado, nú, com uma lança em cima da pedra, e um turbilhão de borboletas amarelas girando a sua volta, realmente espetacular! Ali, iniciava para nós, a passagem no “túnel do tempo”. O índio nos levou para conversar com o chefe Malakuiawa, que nos esperava na aldeia, a dois km do porto. Levamos nossos pertences, deixando no barco todas bagagens e equipamentos.

lula e toninho no xingu

Várias crianças nos acompanharam no trajeto, tornando a caminhada muito prazerosa. Alguns falavam português, facilitando o contato. Já escurecia quando chegamos na casa dos homens, no centro da aldeia.

Malakuiawa nos esperava para conversar. Seu filho Atamai era o interlocutor e, perguntou se trouxemos o trator. Washington ficou surpreso mas explicou que tinha feito um contrato com a Funai de pagar um cachê igual para as aldeias e que não daria para comprar um trator. Feita a tradução para o chefe, ele começou a chorar. Ficamos atônitos com a situação, o choro levou uns 15 minutos, mas depois, se levantou e falou, que iria nos ajudar a realizar as filmagens, com festas e danças, enfim mostrar sua cultura, o dia a dia da comunidade. Washington prometeu falar com nossos produtores sobre o trator, e acabou que a Ford fez a doação.

Os deslocamentos para gravar, eram feitos a pé ou de barco, mas sempre tínhamos que andar muito. Nos 60 dias, uns 250 km!
A floresta tem tudo: O buriti é de mil utilidades, as ervas medicinais, o sal extraído do aguapé, as canoas feitas de tronco, as flechas, o urucum, o pequi e todos os frutos.

São festeiros, cantam, dançam, pintam (e bordam), pescam, caçam, constroem abrigos, fazem suas ferramentas e são ótimos artesãos. Os Waurás fazem panelas de barro(cerâmica), extraído no fundo do rio.

Foi como uma lavagem cerebral, os aprendizados diários que víamos, desde o respeito e atenção aos idosos, até a liberdade incondicional das crianças. Uma sociedade feliz, democrática, respeitosa de suas crenças.

Vivendo e aprendendo, a oportunidade de conviver com os seres especiais, como nossos ancestrais, beber da sua sabedoria, é realmente um privilégio!
Washington nos levou a desfrutar mais cinco nações indígenas, que nos fez crescer com essa energia ancestral

Kuikuro   Yawalapiti    Kalapalo    Metuktire   Panará

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Histórias do Lula

A vida nos ensina a criar, adaptar, em algumas situações, no desempenho de nossas atividades. Tenho observado, no decorrer da trajetória profissional, quantas atitudes bem vindas tivemos, aumentando a capacidade de criação. Quero citar aqui, alguns exemplos .

Cablecam, Paucam, Tapete mágico, Cabo aéreo, Padiola, Colméia, Braço mágico, etc.

Operando o steadicam a 28 anos, despertou a criatividade, para realizar algumas operações.

Em 1982, com Edgar Moura, no filme de Daniel Filho, “O Cangaceiro Trapalhão”, usamos uma espécie de colméia, feita de extensores de moto, adaptado num camera car, para fazer um a perseguição de carroças, com uma Arri BL III, presa na colméia, bem estável.

Em 1990, na novela “Pantanal” de Jaime Monjardim, usamos o tapete mágico, para um traveling out, operador e câmera em cima de um tapete, que puxado por duas pessoas, desliza no chão com suavidade, sem ruídos. Também usamos a padiola, montada para caber na Toyota, com 4 pés, que levava todo nosso equipamento para as locações, serviu de traveling alto.

Em pé, com a câmera na mão, em cima da padiola, com um apoio de um tripé catracado.

Na novela também usamos, para flutuar nas águas do rio Negro, uma placa grossa de isopor, para apoiar a câmera, para as cenas de dentro d’ água. Quando houve a necessidade, de obter imagens subaquáticas, usamos um aquário do mesmo tamanho da câmera, e afundando-a um pouco, usando bóias de proteção.

Em 1996, na TVE, na “Turma do Pererê”, de Sonia Garcia, em Foz do Iguaçú, usamos um cabo aéreo, da Brigada de incêndio, para fazer um traveling de 50 metros, em declive, utilizando um boldrier com carretilha sobre o cabo.

Produzimos um cipó, para índio curumim voar pela floresta.

Em 1999, na “História sem fim do rio Paraguai”, de Valéria del Cueto, usamos o Cablecam, para registrar um grupo folclórico, sob a sombra de uma árvore frondosa, amarramos uma corda, num galho da árvore, e colocamos a câmera pendurada. Fazendo movimentos pendulares, aproximamos dos músicos e afastando. Com a câmera Atoon 16mm, com uma angular 8mm, testada antes, para ver o enquadramento, para depois fechar o ocular, câmera cega.

Em 2002, na Amazônia, num evento esportivo,  tipo triatlon da floresta, usamos o Paucam, um cabo de machado, com uma base de apoio articulado para a câmera, uma Arri SR16mm, que ficou presa com extensores. Para tomadas tão baixas, pegando os pés dos atletas nas corridas de chão. É muito pesado e cansa correr com esta adaptação, mas o efeito é ótimo.

Em 2006, com Washingto Novaes, de novo no Xingú, com a série “Xingú, A terra ameaçada”, usamos o braço mágico, para pendurar uma Sony Z1,  em low mode, como o paucam, só que articulado, para as danças dos índios, na festa do Kuarup.

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Por toda a minha vida

No início de 2008, participei da série “Por toda minha vida”, e gravamos 3 programas: Mamonas Assassinas de José Luiz Vilamarim, Dolores Duran de João Jardim e,  Chacrinha de Pedro Vasconcelos.  Esta série é feita com uma camera, e com acabamento cinematográfico. Os programas são gravados em duas semanas, e geralmente são de época, com todo o cuidado de pesquisa, etc. A importância do resgate, da memória histórica de nossos artistas é grande, além de trazer as músicas que gostamos de ouvir.  Por causa de pouco material de arquivo, o programa da Dolores Duran, foi o mais trabalhado na dramatização. Em algumas cenas, usamos película para simular imagem de época.

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Posso dizer que sou um cara de sorte!

Toda minha vida foi cercada de incidentes, que me levaram a ser hoje, um amante da vida. Em situação de perigo, de risco de vida, costuma passar um filme na cabeça da gente, como um clipe da sua vida. E cada vez você renasce, agradece a Deus por ter sobrevivido, e tenta melhorar de atitude, pois você tem mais uma chance. Vou relatar aqui algumas experiências que passei nesta vida.

No ano de 1974, levando uns móveis pra Maricá, de Kombi, depois de descarregar a mudança, resolvemos dar um mergulho no mar. Eu, Netto e Sérgio, ficamos impressionados com a calmaria do mar, parecia um lago, e começaram a me sacanear com meu novo par de pés de pato. Resolvi então dar uma nadada, para experimentar a novidade, e fui pra fora (alto mar), em velocidade… Escutei um assobio da praia, eram os meninos apontando para o horizonte, era uma Waymea, a onda gigante, que vinha lá longe em direção à praia. Um segundo para tomar a decisão. Fugir ou partir pra cima? Estava eqüidistante… Parti pra cima dela, a todo vapor! Confiando em meus pés, alcancei velocidade de desenho animado, quase fora d’ água, quando percebi que ainda estava longe dela, que, a cada instante, aumentava de tamanho. Segui a batalha de me superar, para enfrentar aquele gigante, que, parecia um paredão de mar, e o vento fazia chover, no alto da sua crista em cima de mim. Agora bem próximo, no risco máximo, passou o filme da minha vida, na minha cabeça. Parece edição de décimos de segundos, imagens de momentos da minha existência, nesse curto espaço de tempo, até conseguir vazá-la na curva do seu dorso, saltando no ar do outro lado e cair no seu chupão, depois do estrondo abafado de milhões de litros de água em queda. Exausto e assustado, ainda tive que nadar para outra menor, que vinha logo em seguida, e acenar para o pessoal da praia aliviando a tensão. Fiquei algum tempo boiando, pra voltar a respiração ao normal. Este filme eu vi diversas vezes, nos outros acidentes que tive no decorrer da vida.

Em 1981, na volta de Londres, onde gravamos a novela Brilhante, sob a direção de Daniel Filho, tivemos uma cena de efeito especial. No campo de Gericinó, em Campo Grande, a queda de um avião bi-motor, que batia numa árvore e explodia. Tudo programado para a cena, envolvendo caminhões, cabos, roldanas, trilhos e muita gente. Daniel junto com o Farjala (efeitos especiais), estudando os melhores ângulos para as câmeras. A carcaça da aeronave, estava sobre um trilho camuflado com folhas num declive do terreno, de forma que o aparelho descia até bater na árvore, para depois explodir. A única câmera frontal era a minha, em cima de um andaime de três metros de altura.

Dado o “ação”, todos gravando, o avião vem vindo em direção a árvore e de repente sai do trilho, desviando do obstáculo e seguindo em minha direção. No ocular da câmera senti que vinha muito rápido, escapando da árvore e se aproximando, quando fui olhar fora da câmera, já estava embaixo. Segurei com força a câmera achando que só iria balançar, quando veio o impacto, fechando o quadrado do andaime (jaú), me lançando com a câmera para o alto, como numa catapulta.

Neste momento, fechei os olhos e agradeci a Deus por tudo, pela proteção, e caí no meio das ferragens em pé (parecia um paliteiro), com pequenas escoriações. Quando toquei o chão, a asa do avião ainda me empurrava pelo pescoço até parar. Era o fim do cabo de aço, que segurava o aparelho pela cauda. Tenho foto da queda, feita pela reportagem do globo. Neste momento, também passou o filme da vida, só que de outra forma. De olhos fechados, confiante na proteção divina, pois estava mais entregue nas mãos de Deus, diferente do pavor que senti da onda gigante.

Outro acidente com avião, aconteceu em 1991, no auge do sucesso da novela Pantanal, direção de Jaime Monjardim. Fiquei 8 meses no pantanal, gravando stock shot (fauna, flora, etc.). Depois da primeira fase da novela, a nossa equipe reduzida, visitava as fazendas, gravando material para abastecer os capítulos de visuais da natureza. Tínhamos um mono-motor, que nos levava nestas incursões e, sobrevoando uma fazenda, vimos o avião que fazia o mesmo trabalho com a equipe da revista Manchete. Sugeri descermos para trocar informações, pois eles sempre tinham boas dicas de lugares, ninhais e eram pessoas legais. Nosso grupo era de quatro pessoas e acabávamos de chegar de Bonito, onde gravamos uma gruta fantástica. Usei o recurso de espelhos, para iluminar a boca da gruta. Na aeronave não havia espaço para os espelhos, somente dentro da cabine, lá atrás, deitados sobre o equipamento. O piloto ficou relutante em descer na fazenda. A pista era curta, mas tinha um bimotor no solo.

Procedimento de descida, já com as rodinhas no chão, o piloto não conseguiu reduzir a velocidade, o fim da pista, com o bimotor de frente e por pouco não batemos, desviando com a asa direita levantada, ufa!!! Passamos o avião, em seguida a cerca de arame que rompemos, para cair num alagado que estava em desnível à nossa frente. Um tronco de babaçu, bem grosso, a poucos metros nos esperava para explodir, mas as águas nos frearam brutalmente.

O estrondo que ouvimos dentro da cabine, eram os espelhos que estavam a altura de nossos pescoços, e na freada brusca, quando estávamos curvados para frente, eles passaram e explodiram no pára-brisa da aeronave. Não nos machucamos, graças a Deus, mas os espelhos nos deram um grande susto.

O dono da fazenda disse ter visto uma grande onda, tipo aquela, no mar do pantanal. Gravei depois, uma junta de oito bois, retirando o nosso avião do alagado. O Jaime usou estas imagens, para a notícia do desaparecimento de um personagem da novela.

Um outro episódio aéreo foi em 1999, no Rio Grande do Sul, já concluindo nossa missão de viajar o Brasil captando material para o filme, “Brasil, Feel the passion”, dirigido por Sérgio Bernardes. Viajamos por todo o país, documentando as belezas da nossa pátria. Muitas horas de vôo de helicópteros nos colocaram várias vezes em situações de risco de vida.

A mais grave foi nos Aparados da Serra, onde tomamos um susto ao chegarmos. A equipe do Ibama nos recebeu com armas em punho, pois é proibido o sobrevôo nesta área. Sérgio tentou contatar com a produção, sem sucesso. Não tínhamos em mãos nenhum documento oficial, mas depois conseguimos a liberação para irmos embora. O Itaimbezinho é um espetáculo para os olhos de qualquer ser humano! Imagine uma rachadura gigantesca de mais de 10 km, com 100 metros de profundidade, com os paredões encachoeirados, é lindo! Com a câmera instalada no nariz do helicóptero, e comandada através de um joystick, captávamos um material espetacular, quando de surpresa deparamos com um cabo aéreo, quase invisível, que parou bruscamente o aparelho, deixando-nos mais uma vez entregue nas mãos de Deus.

A frenagem foi brusca e a aeronave declinou para trás, parecendo que ia cair. Nossa sorte é que, abaixo da hélice, existe um corta-cabo, espécie de lâmina apropriada para este tipo de emergência e, no final da resistência do cabo, e da habilidade do nosso piloto, conseguimos romper a barreira. O estrondo que causou, com a quebra da peça de corte, caindo dentro da nave e ferindo as costas do piloto, em segundos estávamos em pânico, para em seguida, habilidosamente, nosso comandante retomar o controle, e pousar num terreno para avaliação dos danos.

Encontramos outro cabo aéreo quando sobrevoamos um rio em Roraima. Era um vôo rasante, sobre o leito de um rio serpenteado e, de repente, avistamos uma balsa e paramos no ar para observar, tomamos o maior susto, pois estávamos a um metro de um cabo aéreo! Márcio Muller, nosso piloto, mostrou sua destreza ali, naquele momento. Foi um susto e tanto, mas graças a Deus, escapamos.

O MONTE RORAIMA

Com o Sérgio Bernardes, visitamos o Monte Roraima, o ponto mais setentrional do nosso país. É um paredão de 3.000 metros de altitude, difícil acesso e de uma beleza rara, que poucos tiveram a oportunidade de conhecer. Estivemos lá, meses depois de um acidente com equipe do globo ecologia, que por excesso de peso caíram, num acidente de repercussão nacional. Neste evento, perdemos um colega, técnico de som chamado Cuca, que conheci na TVE. Ficamos sabendo dos detalhes do resgate, por intermédio do nosso comandante Márcio Muller, responsável pela operação de resgate, que também teve participação das forças armadas.
O monte Roraima é, geograficamente, como a torre do jogo de xadrez, o centro é rebaixado, ficando um paredão em volta.

Quero abrir um parágrafo especial para meu assistente de câmera, Eduardo de Andréa, que nessa expedição ajudou muito para resolvermos as questões operacionais da viagem. Eu e Kito, (apelido do Eduardo) tivemos treinamento para abastecer a aeronave durante nossa estada na Amazônia, pois não havia espaço para a tripulação do helicóptero. Aprendemos a abastecer, aterrissar em terreno acidentado e preparar a aeronave para os pernoites (estacionar). A cada troca de rolo, Kito descia da nave, sem pousar e comandava o piloto para uma melhor posição. Limpava o filtro da lente e carregava o novo chassi, já dentro da aeronave. Esta operação parece simples, mas na hora é o maior estresse. De temperamento calmo, Kito resolvia todas as questões com serenidade. Isso ajudou muito.

Com toda precaução, fizemos o translado em duas viagens. Existe um “esperar” em solo, a abertura das nuvens para termos acesso ao monte. E rapidamente decolamos para a primeira leva que já estava pronta. Eu Kito e nosso piloto, levantamos para a primeira viagem.
Assistimos o Luiz Saldanha, nosso produtor, jogando nossa barraca no chão, triste por não ter chegado a tempo de embarcar na aeronave. A subida é incrível, para atingir os três mil metros o helicóptero tem que subir num movimento espiral. Vendo aquele gigantesco paredão, que não acaba nunca na nossa frente, fizemos o agradecimento a Deus, pela oportunidade de estar ali e, aterramos com tranqüilidade no topo do monte.

Depois de descarregar o material, ficamos como crianças, naquele paraíso lunar, correndo de um lado para o outro, felizes, tirando fotos e brincando. De repente vem uma nuvem negra, em nossa direção e nos faz, aceleradamente juntar todo nosso material em baixo de um guarda-sol, que prendemos no tripé do steadicam, que já estava montado. A grande nuvem tomou conta do espaço, com visibilidade de 50 cm.

Começou a chover forte, e nós juntos com toda tralha amontoada, debaixo daquela mini proteção, com um volume grande de água, em corredeiras pelos nossos pés. Passou a chuva e checamos o que molhou, separando algumas coisas e olhando o cenário que mudou totalmente. Agora tinha uma névoa, que cobria tudo, mas descortinava, aos poucos, pedaços dos paredões de pedra, que formam desenhos de bichos, cabeças de índios e outras coisas indefinidas.
Escureceu muito rápido e começamos a ficar preocupados, porque só tínhamos trazido mantimentos e algumas roupas. As barracas viriam na segunda viagem, portanto, com o cair da noite, estávamos sem abrigo. Vibramos com o som do helicóptero, com farol aceso, tentando nos localizar. Daí pra frente foi um corre-corre, pois o local do acampamento ficava a uns 500 metros, em terreno muito acidentado e lavado pelas sucessivas chuvas.

Porthos, o nosso guia, chegou à frente das pedras gigantes e nos orientou para montar as barracas. Nosso piloto acabava de aterrissar numa manobra espetacular, quando abrimos a porta da aeronave, um cheiro de querosene muito forte, tomava conta da cabine, deixando o comandante ligeiramente tonto.

A bomba de combustível, havia derramado e causado este transtorno. Graças a Deus, ficamos todos bem, aquecidos e abrigados. À noite, a chuva trouxe o cansaço e o sono, por causa da altitude, o rarefeito nos deixa tonto nas primeiras horas e, resolvemos que seria melhor dormir cedo para ganhar o amanhecer.

Eu estava encharcado da chuva, e como criança, adorando estar descalço, fazendo o fio terra com o Monte Roraima. Todos se recolheram, fui trocar de roupa na barraca que divido com o Sérgio, e com a minha Meg-light de 5 pilhas, procurava na mochila algo próprio para chuva e pousei a lanterna no chão. De repente a luz apagou.

Achei estranho, a mega era zero km. No escuro abri e tirei as pilhas, troquei de posição, nada. Um ruído fora da barraca me chamou atenção, era uma respiração ofegante, bem do lado da entrada da barraca. Era o barulho da chuva no tecido, o ronco do Sérgio e a respiração ofegante, que aumentava a cada instante. O medo tomou conta, tinha certeza que todos já estavam dormindo somente Porthos esquentava uma água pra fazer o macarrão, portanto o que estava acontecendo? Comecei a rezar o Pai nosso…

E a respiração começou a diminuir de intensidade, até que parou de vez. Agradeci a Deus, e na hora não percebi, o sinal que estava recebendo. Foi um momento especial para mim, hoje penso que pode ter sido, um contato espiritual com meu colega Cuca. Na hora da oração, pensei na proteção, para depois dedicar aos espíritos necessitados, como sempre faço orar pelos nossos ancestrais, orientação do mestre Taniguchi.

Aproveito para reverenciar, aquele que há mais de 30 anos tem sido o fio condutor da minha vida, a filosofia otimista que adotei e que tem me ajudado significativamente. Os preceitos diários do mestre Masaharu Taniguchi ( Seicho-no-iê), é uma folhinha que viramos a cada dia, e tem sempre uma ótima frase para iniciar a nossa jornada, dando um gás ao espírito e auto-estima.

Bem, continuando, depois da chuva, saí da barraca e fui ao encontro de Porthos que já estava na reta final da sopa tão desejada e cheirosa, naquela noite de 6 graus. Certifiquei-me que não havia passado na minha barraca e, logo todos começaram a chegar pelo cheiro, como desenho animado.

Agora sem chuva, saboreamos a delícia quentinha que nos salvava naquela friagem. Sérgio pediu para arranjarmos gravetos para uma pequena fogueira. Parecia piada, depois daquela chuva encontrarmos algo seco. Venceu o espírito indígena e fomos atrás dos gravetos. Todos tinham as big lanternas, com seus fachos potentes e, surpreso fiquei quando encontro bem próximo do acampamento, um monte de gravetos, secos e arrumados como uma mini fogueira.
Chamei na hora uma testemunha para que não tivesse dúvida e levamos, assim como estava para cima do fogareiro, queimando aquelas raízes misturadas, exalando um perfume dos deuses, um aroma especial combinando com o brinde do presente que nos fizeram os índios Macuxi, o Caxirí (bebida feita da mandioca), de cor lilás a 6 graus, uma delícia!

Esta noite ainda fomos cobertos por uma espessa camada de nuvem branca que refletiam as luzes de nossas lanternas, em movimentos circulares parecendo ”contatos imediatos”. A alegria era tanta que parecíamos adolescentes, brincando com lanternas e gritando como índios. O Monte Roraima, representa para os Yanomamis, o tronco da árvore gigante da vida, habitat de Macunaíma, um lugar mágico!

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As maiores emoções da minha vida

A década de 80 foi uma das melhores da minha vida. Frank Sinatra chega ao Rio para um show no Maracanã, e a Globo me contrata para o evento, que para mim, é o que poderia ser de melhor, estar junto daquele que me fez deslizar nos bailes da minha vida, curtindo dançar ao som de seus long plays. Aloísio Legey é o diretor do evento e, tentamos usar pela primeira vez o Steadicam. Premiado no Oscar (1978) como – a maior invenção de equipamento para cinema.

 

O Steadicam é um acessório usado para estabilizar a camera, em movimento. São três peças que compõe o equipamento: 1- Vest (colete ajustado ao corpo do operador), 2- Arm (braço mecânico articulado), 3- Slad (aste pendular, com a camera, monitor e bateria). Na realidade, o braço articulado é que faz o papel do amortecedor, e com isso, suaviza os movimentos da camera em movimento. Afinar o instrumento, é como dizemos, comparando com instrumento musical. O balanceamento do pêndulo, para nivelar a camera, ajustar as molas do braço, tencionando para subir a camera, e vice-versa. Depois de afinado, é só tocar. Flash Back – quando abri os cases no Maracanã, me emocionei, querendo montar logo, mesmo sem saber. Consegui, mas as baterias estavam descarregadas.

“Depois disso me efetivaram como funcionário, para gravar as series que Daniel Filho dirigiu: MALU MULHER, PLANTÃO DE POLÍCIA, CARGA PESADA, O BEM AMADO, AMIZADE COLORIDA e outros. Tudo feito com Steadicam, “a febre do momento”. Viajamos para Londres, com a novela de Doc Comparato, BRILHANTE, depois, de volta ao Brasil, fizemos a série QUEM AMA NÃO MATA, também de Daniel Filho. Aloísio legey, era na época o diretor musical do Fantástico e me designou para dirigir um clipe do Gilberto Gil em NY. De lá, fui com Ítalo Granato, meu produtor, para Los Angeles dirigir outro clipe com Sérgio Mendes. Foi ótimo! Na volta ao Brasil, recebi um convite de Edgar Moura, para fazer um longa metragem . Estávamos gravando a mini-série PARABÉNS PRA VOCE com Daniel.Que maravilha, a globo me deu 8 semanas de licença para fazer o CANGACEIRO TRAPALHÃO , filme de Daniel Filho, sua maior produção cinematográfica.

Duas BL2 zeradas, completas, impressionante! Os assistentes eram Nonato Estrela e Jacques Cheuiche, meus queridos irmãos e sócios da N3 produções, (nós três). Outro convite para novo filme dos trapalhões, e tive que pedir demissão da Globo. O cinema me abriu os olhos, para a direção de fotografia, me preparando para a série de Washington Novaes, XINGU, em 1984.

O primeiro prêmio internacional, em Seul 1985. Vencemos o Festival de Seul de documentário científico, disputando com Jacques Cousteau (Amazônia). O aprendizado da vida que tivemos, junto com os índios nos 60 dias, foi como uma viagem no túnel do tempo. Agradeço ao Washington a oportunidade que mudou minha vida .(“depois de viajar 4 horas de barco pelo rio Culuene, a aproximação do porto da aldeia, foi brindada com a imagem de um índio Waurá nu, todo pintado e paramentado, com uma grande lança na mão , cercado de um turbilhão de borboletas amarelas em sua volta”) Em 1987, OS CAMINHOS DA SOBREVIVÊNCIA , série de Washington Novaes, pela rede Manchete, foi outro sucesso, com 2 programas sobre o Pantanal mato-grossense. Voamos duas semanas de balão, com convidados: Walter Carvalho, na segunda unidade, Siron Franco nas direção de arte e comentários de Carmo Bernardes.

Jaime Monjardim encantou-se com o seriado e, em 1990, me convidou para fazer a novela de Benedito Rui Barbosa, PANTANAL, que foi o maior acontecimento na história da telenovela brasileira. Jaime também me designou para dirigir o Making Off do Pantanal. Década abençoada!

Marcelo Dantas, em 1997, me convida para fotografar uma série sobre comportamento, apresentada por Lúcia Veríssimo, Terra Brasil, com 40 episódios no GNT, que ganhou um prêmio no ano seguinte no NY Festivals.

Em 1998 conheci Sérgio Bernardes, grande documentarista e apaixonado pelo Brasil. Realizamos a maior captação de imagens do nosso país. Durante um semestre inteiro, viajamos de norte a sul, leste-oeste, para filmar em super 16 mm, o documentário Cauê Porã, encomenda da Embratur (Secom), mostrando as belezas de nossa terra, com mais de 60 horas de material folclórico e a fantástica beleza natural das 5 regiões do Brasil. Em 1999, foi muito especial, fui pro Pantanal com a Valéria Del Cueto, filmar o curta mais exibido em festivais, A História sem fim do rio Paraguai… o relatório, visitamos em 20 dias, a população ribeirinha em mais de 1400 km de rio, (ida e volta).

Em seguida dirigi meu primeiro institucional RIOTUR, “Rio Incomparável!”, com mais de trinta atores, nos diversos pontos turísticos do Rio, em cinco versões, super 16 mm.

Em 2000, viajamos para visitar 7 países da Europa, França, Itália, Alemanha, Suíça, Dinamarca, Noruega, Suécia, numa série também dirigida por Washington Novaes, “O DESAFIO DO LIXO”, para a TV Cultura. Esta viagem foi uma experiência fantástica! Num total de 40 dias, uma equipe de 7 pessoas numa big-van, conseguimos rodar 10 mil km, visitando três cidades, em média, para cada país.

Washington além de jornalista é um excelente historiador, contando, a cada lugar histórico que passávamos os fatos relevantes da nossa civilização. Como ele já havia feito este mesmo percurso, levamos vantagem nos restaurantes e hotéis que nos hospedamos. Meu companheiro, técnico de som, Antônio Gomes ( Toninho), que sempre me acompanha nessas aventuras com o Washington, é que adorava os almoços e jantares, nos melhores restaurantes dos lugares. Lembrando de todos os momentos que passamos juntos, acredito que foram os melhores momentos de nossas vidas!

Outros 40 dias passamos nos Estados Unidos, visitando 7 estados, New York, Chicago, São Francisco, Washington, Deserto de Nevada e Toronto, no Canadá. Visitando usina atômica, de reciclagem, aterros sanitários, fundições, e tudo o mais com aquele cheiro peculiar… Mas, depois de um banho, tudo volta ao normal. Esta expedição foi via aérea, pelas longas distâncias. Da mesma forma, hospedagens e refeições exemplares.

Em NY fomos barrados na portaria do World Trade Center. Pretendíamos fazer um take, lá do terraço, mas cobraram U$15.000,00!!!!! Resolvemos então gravar a fachada, o segurança não deixou e saímos chocados, mas conseguimos gravar os prédios a longa distância. Um ano depois eles já não existiam.

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